A pedagogia dos dispositivos: um método para a Educação Audiovisual

A cozinheira da escola segura nas mãos uma fotografia, enquanto conta para um grupo de estudantes do 3o. ano do Ensino Fundamental sua relação com aquela imagem. A mulher é filmada por uma das crianças do grupo, com um celular, e descreve com riqueza de detalhes os elementos da foto. As crianças a escutam com ouvidos atentos e olhares admirados e, mais tarde, no cineclube, quando todas as turmas se reúnem, partilham seu trabalho e assistem às imagens de outras funcionárias da escola que também foram filmadas. Outro dia, um grupo de crianças recorta letras de revistas e jornais para formar um Abecedário Visual. A professora os auxilia na organização desse alfabeto, então propõe que as estudantes filmem por poucos segundos apenas as consoantes B-D-G-P-T e, em seguida, filmem qualquer coisa da escola que comece com alguma dessas letras. Mais tarde, a turma toda assiste às coisas filmadas e a professora constrói com elas uma relação entre as imagens, as letras, os sons e as palavras. Em outra escola, durante a pandemia, uma professora de geometria aborda o formato de vários sólidos. Como forma de consolidar a exposição oral, ela pede que os alunos fotografem objetos em sua casa de variados formatos e compartilhem no grupo do Whatsapp criado por ela. A turma sai animada e, após dez minutos, algumas dezenas de fotografias começam a circular pelo aplicativo e mobilizam um debate animado entre estudantes e professora a partir das formas, cores e traços dos objetos fotografados por cada um. 

Em comum, todas as experiências acima relatadas têm, além do fato de serem realizadas no ambiente escolar, presencial ou remotamente, um mesmo princípio organizador das práticas: o dispositivo. As estratégias de mediação formuladas pelas professoras que adotam a pedagogia do dispositivo tem raízes em referências do campo das artes e da educação e, hoje em dia, se populariza no Brasil como uma metodologia ativa que constitui um arranjo curricular de experiências e saberes escolares e comunitários voltados para a promoção de aprendizagens significativas  de forma inter e transdisciplinar.

Mas, o que é um dispositivo? Nesse post vamos apresentar esse conceito e a sua organização pedagógica, bem como os modos como a Semente se apropriou do conceito aproximando-o da noção de metodologia ativa no desenvolvimento de práticas relacionadas à BNCC e os ODS.

O dispositivo como um método de criação e mediação de aprendizagens

Ao longo do século XX, inúmeros artistas em todo o mundo problematizaram a ideia da criação artística como algo possível a apenas algumas pessoas que possuem dons, aptidões ou talentos especiais. Nesta chave tradicional, a criação parte da mente de um artista que tem uma ideia original e a expressa em materiais diversos, seja uma página em branco ou um pedaço de cobre ou argila. Problematizando tal princípio, alguns movimentos propuseram outras maneiras de pensar a criação apostando na elaboração de regras, procedimentos e métodos inventivos e, muitas vezes, irreverentes, a partir de limitadores e jogos. 

Um dos mais conhecidos exemplos remonta às vanguardas artísticas do século passado: em 1920, o poeta Tristan Tzara escreve de forma irônica o poema intitulado “Receita para fazer um poema dadaísta”. O título não aponta para o teor, tema ou conteúdo do poema, mas para as instruções dadas aos leitores sobre como fazer um poema com aquelas características. No poema, o autor sugere que a criação deve partir do recorte de palavras de um jornal, primeiramente. Em seguida, as palavras recortadas são misturadas num saco e, uma a uma, retiradas, de modo que assim seja construído o próprio poema. 

Nesse caso, o que o artista faz? Nada, alguns dirão, uma vez que é um poeta que sequer escreve. Porém, seu gesto é de outra natureza: ele cria condições para que um poema apareça, a partir da seleção de trechos de jornais escolhidos e recortados e de sua combinação aleatória, influenciada pelo acaso, que possui um papel importante na construção, já que as palavras são retiradas do saco independente da decisão do poeta. Assim, muitos poemas diferentes podem ser produzidos a partir do mesmo método. O gesto criativo, neste caso, não se refere ao que o artista inventa, mas ao método que possibilita a criação.   

No chão da escola, o modo de organização das experiências promovidas pelo dispositivo tem um grande potencial pedagógico, não apenas em práticas ligadas às artes e ao desenvolvimento da criatividade, mas na promoção de aprendizagens, independente da etapa ou contexto de formação. Isso porque o ato de ensinar e aprender tem a ver com a criação e, sobretudo, com a abertura e a participação no mundo, a relação com as coisas, pessoas e acontecimentos, e a sistematização de conhecimentos a seu respeito. 

Como indicamos nos exemplos que abrem esse artigo, as dinâmicas colaborativas promovidas pelos dispositivos com a linguagem audiovisual posicionam os estudantes como protagonistas de um processo de vinculação, investigação e criação da e com a realidade. O mundo que se abre aos estudantes através das telas e microfones dos celulares comporta a complexidade daquilo que se converte em material para fruição e reflexão na sala de aula. As imagens e os sons produzidos nas vivências dentro e fora da escola criam pontes entre o saber escolar e as diversas formas de saber, viver e sentir o mundo, inclusive as dos próprios estudantes. Aí estão as bases para a promoção de uma aprendizagem inclusiva, democrática e acessível.

Uma pedagogia do cinema e audiovisual

Em todos os campos artísticos – cinema, música, pintura, literatura, dança, teatro, etc. – os dispositivos têm sido intensamente experimentados como um método de trabalho e, simultaneamente, inspirado processos de formação em ambientes formais e não-formais de ensino. A trajetória de consolidação da Escola Semente está diretamente ligada à sistematização da pedagogia do dispositivo e em sua apropriação para a formulação de metodologias que pudessem corresponder às necessidades concretas de professoras e professores de muitas escolas paraibanas.

A invenção do método de trabalho com os dispositivos audiovisuais foi proposta pelo programa Inventar com a Diferença – cinema, educação e direitos humanos. Iniciado em 2013 pelo Laboratório Kumã, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e com contribuições de outros grupos, como o CINEAD/LECAV, da  Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o projeto elaborou uma metodologia de trabalho para o cinema na educação a partir de procedimentos muito simples. Uma de suas características centrais é a ideia de que há uma maneira democrática de ensinar e fazer cinema e audiovisual nas escolas, mesmo sem equipamentos ou conhecimento técnico ou da linguagem prévio. O que orienta esse princípio democrático é justamente a metodologia dos dispositivos, que são descritos nos Cadernos do Inventar1, material gratuito disponibilizado às escolas, como “exercícios, jogos, desafios com o cinema, um conjunto de regras para que o estudante possa lidar com os aspectos básicos do cinema e, ao mesmo tempo, se colocar, inventar com ele”.

O material apresenta algumas dezenas de dispositivos que podem ser realizados de forma online ou offline, com ou sem equipamentos digitais, o que oferece bastante liberdade para os variados contextos e suas próprias limitações infraestruturais. A importante contribuição dos Cadernos do Inventar foi não apenas catalogar e tornar público um conjunto grande de dispositivos que vinha sendo praticado pelos autores e outras pessoas no campo da educação, mas efetivamente apostar nos dispositivos como uma pedagogia, como um modo de ensinar e fazer cinema e audiovisual. 

A sistematização dos dispositivos como uma metodologia permitiu que muitos projetos no Brasil, como a própria Semente, passassem a partilhar um outro modo de trabalhar com o cinema e audiovisual nas escolas. Entretanto, esse foi o primeiro passo. E, como o próprio material sugere, o desejo do Inventar com a Diferença2 era que essa metodologia não fosse apenas replicada, mas incorporada, adaptada, contextualizada e transformada nas diversas realidades educativas.

Uma pedagogia viva e transformadora

Após ter contato com a metodologia do Inventar, em 2014, a Semente passou a adotar os dispositivos como um método para trabalhar em parceria com as escolas e comunidades com as quais construiu seus percursos de formação. Em 2016, ainda em parceria com o projeto da UFF, foi proposta a implementação de uma Escola Experimental de Cinema na EMEIF José Albino Pimentel, do Quilombo Gurugi-Ipiranga (Conde/PB), inspirado nas escolas de cinema do CINEAD/LECAV (UFRJ)3. Nosso objetivo foi consolidar uma “escola dentro da escola” e assim fomentar o desenvolvimento de práticas educativas que contribuíssem com as necessidades das professoras e estudantes, fazendo germinar um modo próprio de articulação da linguagem audiovisual nas experiências de ensino-aprendizagem.

A partir dessa experiência, a atuação da Semente é ampliada no estado da Paraíba, por meio do Programa Rumos Itaú Cultural4, e o trabalho no Quilombo Gurugi-Ipiranga aprofunda-se com o apoio da Prefeitura de Conde. Do ponto de vista metodológico, vale a pena destacar que, em cada novo contexto educativo, o mesmo desafio se apresentava: o desenvolvimento de práticas educativas com a linguagem audiovisual que pudessem ser relevantes e contribuíssem concretamente com a comunidade escolar, respeitando as suas singularidades e criando condições para a autonomia metodológica das professoras. 

Tal desafio configurou um modo de semear, cultivar, regar e florescer nas escolas. O semear se manifesta na escuta, no diálogo e na consolidação das condições estruturais básicas, como espaço, equipamentos e repertório de filmes e livros. O cultivar se dá com os cursos de formação de professoras e professores e as oficinas com os estudantes. O regar acontece na contextualização e desenvolvimento de práticas, na medida em que a escola compreende o potencial pedagógico dos dispositivos e passa a pensar as possibilidades de mediação, a partir do seu referencial teórico-metodológico. O florescer implica, nos melhores casos, na configuração de um novo método e no fortalecimento da parceira, fazendo germinar novas sementes.

Ao mobilizar o dispositivo nas escolas enquanto um recurso didático-pedagógico poroso às singularidades, limites e necessidades de cada contexto, uma estratégia de mediação de aprendizagens que não se limita a uma disciplina, mas se relaciona com o currículo de forma transversal articulando saberes, experiências, tempos e espaços; testemunha-se uma proliferação de diversos modos de se relacionar com a linguagem audiovisual na educação. Com o tempo, novos dispositivos têm sido inventados em parceria com professoras e estudantes, ampliando as possibilidades de trabalho na perspectiva inter e transdisciplinar.

Assim como na Semente, em muitas escolas do Brasil os dispositivos passaram a ser reinventados de inúmeras maneiras, a partir da ideia de que a criação com as imagens e sons pode instaurar formas de engajar os estudantes em experiências coletivas e estimulantes.

A pedagogia do dispositivo: uma metodologia ativa?

Com a crise na Educação instalada pela pandemia, o debate sobre as possibilidades metodológicas foi reaquecido e intensificado. Nesse cenário, muito se tem discutido em torno das metodologias ativas, que podem ser sucintamente descritas como abordagens pedagógicas que centralizam o estudante no processo de ensino-aprendizagem. Desse modo, um aprendizado ativo é aquele que engaja os estudantes, individual ou coletivamente, em atividades e ações variadas, dentre as quais se encontra o ensino híbrido.

Embora a pedagogia do dispositivo não tenha sido inicialmente construída, de modo formal, como uma metodologia ativa, entendemos atualmente que é possível aproximá-la dessa abordagem, principalmente pelo fato de ser uma pedagogia que mobiliza o pensar, o fazer e o agir no mundo, articulado às formas do bem-viver e ao cuidado de si e do outro. Ainda mais, se nas metodologias ativas o estudante é o centro do processo, com a pedagogia do dispositivo percebemos que a centralidade é a comunicação entre educandos, educadoras e o mundo. Quer dizer, não apenas os educandos são mobilizados pelas práticas, mas as próprias educadoras, implicando ambos no processo vivo que é ensinar e aprender mediados pelo mundo.  Assim, o processo de ensino-aprendizagem se consolida como um círculo produtivo de trocas constantes que vitalizam o dia a dia da escola.  

É evidente que tal perspectiva metodológica desafia as professoras e professores, que se veem muitas vezes diante das limitações pessoais e são desafiadas pelos dispositivos a superá-las por meio da construção coletiva do saber com o grupo, atravessando as dificuldades de ordem técnica ou mesmo metodológica. Sem desconsiderar tais problemas, reconhecemos que a linguagem audiovisual já ocupa um lugar central nos processos de sociabilidade contemporâneo, de tal modo que, na pandemia, ela tem sido fundamental para a manutenção dos vínculos entre estudantes e professores. Pensar a linguagem audiovisual pedagogicamente se coloca, portanto, como uma demanda dos profissionais da educação do século XXI e mobilizá-la em práticas educativas é um desdobramento inevitável.

A Semente tem apostado na pedagogia do dispositivo como uma de suas bases, ao perceber suas potências pedagógicas e políticas, e a partir daí se propõe a pensar no desenvolvimento de novas metodologias articuladas à BNCC e aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU. Ao transcender o campo de ensino de cinema e audiovisual, a pedagogia do dispositivo pode se consolidar como uma contribuição metodológica fundamental para a construção de propostas de ensino-aprendizagem atentas ao chão da escola, ao território, à singularidade dos estudantes e ao autodesenvolvimento docente, atendendo amplamente às exigências impostas pelo ensino híbrido e lidando com as limitações técnicas vivenciadas pelos distintos contextos educacionais. Assim, a pedagogia dos dispositivos passa a se constituir como uma metodologia ativa de caráter reflexivo, prático e empírico, que encontra nas imagens e sons seu modo de interação com o mundo, de produção do conhecimento e da criação de experiências de ensino-aprendizagem no Brasil de hoje.

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1 Os Cadernos do Inventar podem ser baixados através deste link.

2 Para uma leitura teórica aprofundada da criação do Inventar com a Diferença e seu desenvolvimento metodológico, recomendamos a leitura do livro Inevitavelmente Cinema, escrito por Cezar Migliorin.

3 O CINEAD/LECAV – Laboratório de Educação, Cinema e Audiovisual da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro -, coordenado pela professora Adriana Fresquet, desenvolve atividades de pesquisa, ensino e extensão vinculando políticas e pedagogias do cinema e da educação em parceria com a escola pública, a cinemateca e o hospital. As pesquisas se articulam com as atividades de extensão e ensino que resultam em ações colaborativas entre a Universidade e escolas públicas de Educação Básica municipais, estaduais e federais, a Cinemateca do MAM Museu de Arte Moderna, o Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira e o Hospital Universitario da UFRJ.

4 Clique aqui para baixar o livro e obter mais informações sobre o projeto Cartografia de Imagens: filme-carta, experimentação e formação, realizado pela Semente e contemplado no programa Rumos Itaú Cultural.

1 comment

Maria Lucia Barbosa pereira

Muito legal a exposicao

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