O que é o Programa de Apoio em Educação Audiovisual e quem ele beneficia?

O Programa de Apoio em Educação Audiovisual é a nossa proposta mais completa para solucionar os problemas que escolas e professoras vivenciam em relação ao trabalho com o audiovisual na ensino remoto e híbrido. Hoje vamos falar um pouco sobre o que é, como funciona e quem pode se beneficiar concretamente com esse programa.

Quem acompanhou o Semente em 2020 percebeu que lançamos uma Campanha de co-criação de soluções pedagógicas poucos meses após o início da pandemia. Essa campanha foi o resultado de um processo de investigação para compreendermos a melhor maneira de contribuir com as escolas e professoras no contexto da pandemia. Ela chegou sem pedir licença e nós, como quase todo mundo, ficamos atordoados com o primeiro impacto dessa onda. Com o tempo compreendemos os modos pelos quais poderíamos ajudar concretamente os profissionais da educação nesse momento.

Com a centralidade do audiovisual na promoção das aulas remotas, identificamos alguns problemas que apareceram com recorrência nos primeiros meses da quarentena:

(1) a dificuldade de acesso aos equipamentos por parte de professoras e estudantes;

(2) a dificuldade técnica de muitas professoras para lidar com as tecnologias digitais, em especial os processos de produção e manipulação de imagens;

(3) o não-saber relativo às possibilidades pedagógicas da linguagem audiovisual, uma vez que, até então, o audiovisual, quando aparecia na escola, vinha sendo mobilizado majoritariamente de forma secundária e ilustrativa, como suporte do livro didático, sem que sua potência pedagógica fosse efetivamente aproveitada; e

(4) a dificuldade de engajar os estudantes nos novos formatos e dinâmicas das aulas remotas.

O desafio pedagógico da incorporação da linguagem e da tecnologia audiovisual no formato do ensino híbrido se deu (e ainda existe) em diferentes aspectos, e demanda diferentes medidas para a sua resolução. Diante desses desafios, e conscientes dos limites impostos pelo contexto histórico e social do país, no propusemos a formatar um programa que articula consultoria, formação de professores e suporte técnico e pedagógico visando construir soluções metodológicas específicas, em parceria com cada instituição educativa atendida.

Nos tópicos abaixo, vamos esclarecer de forma sintética como a educação audiovisual pode contribuir para resolver ou minimizar os problemas descritos acima, e como o Programa de Apoio em Educação Audiovisual atua nessa direção.

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1. A dificuldade de acesso aos equipamentos por parte de professoras e estudantes

Talvez esse seja o problema estrutural mais grave que abateu todo o sistema da Educação brasileira. Ele tem raízes profundas na história de desigualdades e injustiças sociais que ainda persistem no país, e ficou evidente nas diferentes dificuldades vividas por crianças e adolescentes – e suas famílias – para manter uma rotina de estudo de qualidade e se desenvolver adequadamente.

Como sempre no Brasil (e não precisa ser pra sempre) os estudantes mais pobres têm menos acesso aos recursos tecnológicos, e muitos foram apartados das possibilidades educativas engendradas com a apropriação das ferramentas digitais na educação. De outro lado, muitas professoras e professores tiveram que fazer investimentos pessoais para garantir o mínimo de infra-estrutura para garantir a mediação das aulas remotas e híbridas.

Em alguns estados, os governos têm investido na ampliação de recursos tecnológicos nas escolas, e a tendência é que, gradualmente, o acesso às tecnologias digitais se torne mais acessível nas escolas, em resposta ao trauma da pandemia na educação brasileira.

Como a educação audiovisual pode ajudar a minimizar o impacto desse problema nesse momento? Oferecendo uma metodologia que incorpore o possível, o que está acessível aqui e agora, e faça daquilo que está disponível as bases de uma experiência de aprendizagem relevante para os estudantes.

Não é preciso câmeras semi-profissionais, celulares da última geração, ilhas de edição profissional, internet de alta qualidade. Claro que quanto melhor for a infra-estrutura, mais possibilidades de mediação de aprendizagens podem ser concretizadas, porém em um momento de calamidade como esse, podemos desenvolver estratégias que foquem naquilo que é prioritário para o professor na relação com a sua turma: fortalecer os vínculos afetivos ao construir um lugar de interação entre os estudantes; estimular a participação do estudante nas aulas de modo que ele possa dar linguagem a sua experiência na pandemia, e com isso sentir no ambiente das aulas remotas um respiro que o anima; envolver, mesmo de modo assíncrono, aqueles estudantes que só podem acessar a internet esporadicamente, e o integrar em um projeto de estudos com o compartilhamento dos resultados da aprendizagem um murais colaborativos ou grupos de WhatsApp, por exemplo, minimizando assim o risco da evasão escolar.

No Programa de Apoio em Educação Audiovisual nós partimos de uma análise do contexto da instituição educativa, duas condições estruturais, a realidade sócio-econômica da comunidade em que está inserida, sua proposta político-pedagógica, etc. A partir desse diagnóstico, apresentamos nossas bases metodológicas e convidamos os profissionais da escola a participar de um curso de formação voltado para o objetivo de contextualizar e/ou desenvolver uma metodologia que seja relevante para as práticas da escola. Trata-se de um trabalho pedagógico cuidadoso que visa qualificar a experiência de aprendizagem dos estudantes e fortalecer a sua relação com o ambiente escolar.

Com isso, as professoras se sentem mais seguras e confiantes que estão conseguindo acessar e contribuir com a aprendizagem dos seus estudantes, e esses se sentem mais integrados com a escola, com seus amigos, e estimulados em participar das experiências das aulas remotas.

2. A dificuldade técnica de muitas professoras para lidar com as tecnologias digitais e os processos de produção e manipulação de imagens

Por enquanto, não existe nos cursos de graduação em pedagogia do país a disciplina de produção e edição de imagens e sons, bem como o uso de outras ferramentas digitais. Embora a chamada “convergência digital” venha se intensificando na sociedade há alguns anos, foi na pandemia que essa realidade bateu na porta das professoras.

Agora, além de tudo, os profissionais de educação também precisam aprender a ser virar e aprender a produzir vídeo-aulas, integrar ferramentas digitais em suas estratégias de aprendizagem e mediar práticas que incorporam um novo desafio, a produção e a gestão de dados e arquivos digitais em diversos formatos pelos seus estudantes.

Além da resistência natural de quem não se preparou para essa realidade, e não visualiza como incorporar esse tipo de formação em meio às inúmeras tarefas profissionais e familiares, a experiência concreta negativa, tal como vêm ocorrendo em muitos casos ao longo da pandemia, parecem corroborar o sentimento de frustração e impotência, levando muitas professoras a aceitar a solução mais óbvia de transferir para o ambiente das telas o formato da aula tradicional. Porém essa não parece ser uma solução estimulante para os seus estudantes.

Para ajudar a lidar com esse problema, te convidamos a inverter o binóculo. Ao invés de considerar os problemas técnicos que dificultam a inovação ou adaptação das suas práticas no contexto remoto ou híbrido, que tal partir do seus propósito pedagógico – os resultados de aprendizagem que almeja – e, tendo ele como centralidade, começar a imaginar maneiras simples de introduzir os recursos audiovisuais, aos poucos, dentro do campo de possibilidades que demandam habilidades já adquiridas, ou aquelas que está ao seu alcance imediato.

Por exemplo, em uma aula de biologia, os estudantes podem fotografar as plantas e outros seres vivos do seu quintal, ou do entorno da sua casa, e subir a foto no grupo do WhatsApp, ou em um mural do padlet. Uma prática como essa, para nós, tem o nome de dispositivo de criação audiovisual.

A pedagogia dos dispositivos mobilizam a linguagem audiovisual como instrumentos de mediação de aprendizagens diversas a partir de experiências divertidas com o uso de smartphones ou câmeras portáteis. São jogos, desafios com o audiovisual, simples, acessíveis, estimulantes para professores e estudantes.

No Programa de Apoio em Educação Audiovisual nós oferecemos cursos de formação técnica para ajudar professoras a produzir e editar vídeos com qualidade, mas isso é apenas a base para uma melhor apropriação metodológica dos potenciais pedagógicos mais profundos da linguagem audiovisual. Nos cursos e mentorias especializadas, nós vivenciamos experiências juntos, e depois conduzimos as participantes a construir seus planos de aula com a incorporação das novas metodologias ativas com o audiovisual.

Com isso, novos recursos didáticos são incorporadas ao repertórios dos professores no momento do planejamento, e outras articulações se tornam possíveis na elaboração de estratégias de mediação de aprendizagens.

3. O não-saber relativo às possibilidades pedagógicas da linguagem audiovisual

Nas nossas experiências em escolas e cursos de formação de professores desde 2014, observamos que, majoritariamente, o audiovisual aparece nos planejamentos de aula das professoras de forma secundária, ilustrativa do livro didático, como se fosse mobilizado em aula para corroborar alguma informação já apresentada em sala de aula, geralmente na dinâmica tradicional da transmissão do conhecimento.

É claro que existem muitas excessões, mas muitas pesquisas acadêmicas, inclusive, têm demonstrado que a linguagem audiovisual ainda não ocupou o lugar que pode e deve ocupar no campo da educação, por se tratar de mais uma linguagem disponível na sociedade (e uma das principais hoje em dia) que instaura processos de subjetivação e sociabilização de crianças, jovens e adultos.

Por se tratar de uma linguagem associada a uma tecnologia cara e ao entretenimento, ou para fins educativos ilustrativos com os materiais produzidos pelo INCE nos anos 30, as possibilidades pedagógicas do audiovisual só passaram a ser realmente acolhidas pelos profissionais da educação nas últimas décadas, a partir da popularização dos dispositivos digitais de produção de imagens e sons. É muito pouco tempo quando consideramos um histórico de formação de professores voltado para a educação tradicional e tecnicista, com poucos e bons respiros e inovações apresentadas pelo movimento da educação nova e da educação popular.

O fato é que, salvo mudanças drásticas e inimagináveis no curto prazo em nossa sociedade, as imagens estão aí, os sons estão aí, as redes sociais estão aí, e a dinâmica de comunicação social se baseia na articulação desses elementos para colocar em jogo os saberes, narrativas e perspectivas da realidade, influenciando diretamente na possibilidade de experiências coletivas de mundo que vivemos cotidianamente. Esse é, portanto, definitivamente, um problema de educadores e educadoras.

Aqui, de novo, apresentamos uma abordagem acolhedora, que demonstra para os profissionais da educação que não é preciso fazer uma nova graduação para se atualizar a respeito dos novos recursos tecnológicos na educação. Claro, é sempre bom se atualizar, se especializar profissionalmente, e nós oferecemos as condições concretas para isso com cursos e mentorias especializadas, mas é possível começar desde já observando a sua própria relação com os dispositivos de produção de imagens e sons.

Percebe que quase todas/os nós já estamos familiarizados com as dinâmicas de produção e visionamento de conteúdos audiovisuais. A questão aqui é o que mobiliza essa experiência, quais gestos estão articulando essas práticas. São experiências de entretenimento ou de mediação de aprendizagens? São gestos de registro observacional, ou de vinculação ativa com a realidade, ou de criação de narrativas, ou de investigação da realidade social?

No Programa de Apoio em Educação Audiovisual nós promovemos um trabalho de sensibilização para esse repertório já existente entre todas/os nós, e abrimos uma roda de escuta, conversa e construção de saberes pedagógicos colaborativamente, em que, a partir da prática de dispositivos audiovisuais, as professoras contribuem com articulações com suas práticas concretas, problematizações pertinentes ao cotidiano em sala aula, e assim nasce o processo de contextualização metodológica, ou de desenvolvimento de novas metodologias.

Com isso, a criatividade pedagógica tão presente nas professoras passa a levar em considerações outros gestos e experiências possíveis com a linguagem audiovisual. A produção de uma imagem ou de um som passa a ser uma experiência viva, ativa, de se vincular no mundo, e, portanto, de promover práticas educativas.

4. A dificuldade de engajar os estudantes nos novos formatos e dinâmicas das aulas remotas

Em uma conversa com uma estudante do ensino fundamental X em meio a pandemia, foi assim que ela descreveu a experiência das aulas remotas: “Parece que estou em uma prisão no zoológico. Isso aqui é o zoomlógico”. São várias as reações similares que detectamos ao longo da pandemia, e certamente essa frustração se extende às educadoras que não conseguem consolidar uma práticas estimulante para os estudantes nesse contexto.

Nas práticas educativas com grupos de estudantes em 2020, constatamos que mesmo em meio aos impactos emocionais da pandemia, com as dificuldades dentro de casa, os problemas de aprendizagem e as os problemas estruturais de acesso às tecnologias, a maioria dos estudantes se esforçam e querem estar presentes, querem participar e se constituir para si uma experiência de escola, não concordam?

Com excessão de problemas muito graves dentro de casa, ou de nenhum acesso aos recursos tecnológicos, problemas esses que fogem ao nosso escopo de atuação, e demanda um outro tipo de suporte, acreditamos que o engajamento dos estudantes nas experiências de aprendizagem remotas e híbridas está diretamente ligado ao quanto relevante e significativo aquela experiência é para ela aqui e agora, nesse contexto difícil da pandemia.

Assim como nós, as crianças e adolescentes estão tentando dar uma sentido para essa experiência difícil da nossa história, e sabemos que os processos educativos se tornam mais relevantes na medida que reconhece que as aprendizagem se realizam na interação entre os seres mediados pelo mundo, como nos lembra o professor Paulo Freire. A “mediação do mundo” nesse caso diz respeito aos processos sociais, culturais e naturais nas suas diversas matizes e modos de expressão. Já a “interação entre os seres” está dificultada pelo isolamento social.

Talvez esse seja o problema que temos a maior satisfação de contribuir para resolver, ou minimizar, através da educação audiovisual. Temos relatos concretos de professoras com a partilha dos efeitos da nossa metodologia no fortalecimento dos vínculos afetivos e no despertar da motivação durante os cursos de formação. Veja esses depoimentos aqui.

No Programa de Apoio em Educação Audiovisual nós apresentamos estratégias concretas que fortalecem a comunicação entre professores e estudantes, e favorecem a consolidação de comunidades de aprendizagem. Como dissemos acima, os dispositivos articulam a tecnologia e a linguagem na mobilização de experiências no mundo, estimulando estudantes e professores acessem o seus próprio imaginário e sentimentos, interajam com a subjetividade dos outros, vivenciem uma experiência de vinculação com o espaço da sua casa, do seu bairro ou do seu território, reflitam criticamente sobre algum objeto do conhecimento, enfim… estimulam a participação no mundo e na cultura. O efeito disso na prática da sala de aula é o fortalecimento dos canais de comunicação entre todos os integrantes da turma, e a consolidação de uma verdadeira comunidade de aprendizagem, que pode se expandir em rede com a devida orientação pedagógica, e promover trocas em outros grupos escolares, e até mesmo outras escolas ou iniciativas educativas do mundo através das conexões virtuais.

Com isso, ao invés de ser experienciara como uma prisão, a vivência das aulas remotas apresentam para os estudantes um leque de possibilidades de novas experiências que, de um lado, ampliam a sua sensibilidade e o seu estado de presença para a sua realidade concreta, seus vínculos e afetos; e de outro, engaja o estudante em uma dinâmica de produção colaborativa do conhecimento e de publicização dos seus saberes no mundo das redes da inteligência coletiva.

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Quer saber mais sobre o Programa de Apoio em Educação Audiovisual?

Você pode acessar os conteúdos gratuitos da primeira edição do programa, que está disponível no nosso site e no aplicativo Caixa de Inspiração, ou baixar o nosso ebook com mais informações de como ele funciona concretamente.

Esperamos que esse conteúdo tenha te inspirado e ampliado suas reflexões a respeito da educação audiovisual e do ensino remoto e híbrido. Se te ajudou, pode ajudar mais pessoas também! Nos ajude a expandir esse debate compartilhando esse texto para quem precisa fazer germinar outras possibilidades pedagógicas!

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